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Maio 2013

O talento e a grandeza de Leonardo Sampaio

Em 15 de fevereiro de 1991, ingressei, por concurso público de provas e títulos, na então Assessoria (hoje Consultoria) Legislativa da Câmara dos Deputados. Aposentei-me exatamente 22 anos depois, aos quais se somam outros 17 de magistério (que valem por 34, tamanha a luta de um professor) e mais alguns como jornalista, desde que, na adolescência dos 14 anos, comecei a trabalhar na redação do jornal O Povo, em Fortaleza. Servidor público, tenho a honra de ser colega de brasileiros que tomamos por referência: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Antônio Houaiss, Manuel Bandeira, Moacyr Scliar, Otto Lara Resende, Antonio Candido, Ariano Suassuna e Carlos Drummond de Andrade), entre tantos outros.

Na Área de Redação Parlamentar da Consultoria Legislativa, escrevi cerca de dois mil discursos para deputados, independentemente do credo político e da filiação partidária de quem os solicitou. Como “especialista em generalidades”, discorri sobre a violência urbana, a seca no Nordeste, as pesquisas com células-tronco, o Sistema Único de Saúde, a Campanha da Fraternidade... Desenvolver um tema substancioso, como o Código Florestal, ou defender pontos de vista coincidentes com os meus não era tão estimulante quanto o desafio intelectual de escrever quatro páginas sobre a construção de um viaduto, ou negar, de maneira persuasiva, as ideias que me fazem, por exemplo, ser contra a pena de morte. Em especial, lembro-me do que preparei para um deputado que, envolvido com o “Mensalão”, pedira-me dois discursos: um para renunciar e o outro para continuar no exercício do mandato, já que não decidira o que fazer. Para poupar tempo e esforço, escrevi apenas um texto, com certo parágrafo que só deveria ser lido em caso de renúncia. Creio que foi o único trabalho do tipo “2 em 1” na história da Consultoria...

Não me filiei a partidos políticos, não militei em passeatas nem pedi votos para quem quer que fosse: como cidadão, fui, e continuo a sê-lo, apenas um assíduo e honesto eleitor; profissional do discurso, esforcei-me por dar razão a Millôr Fernandes, para quem “livre pensar é só pensar”, sem os antolhos da ideologia ou as paixões dos carregadores de bandeiras. Quando à frente da Rádio Educativa do Estado do Piauí, fui locutor de um comício em cidade cujo nome não guardei, papel que, definitivamente, não me agradou, e de que falo agora somente para a remissão de algum pecado. Esse foi, em verdade, o segundo comício de que participei: conta minha mãe que, em 1955, houve, na cidade cearense de Aracati, manifestação de apoio a Juarez Távora, que disputaria a Presidência da República com Adhemar de Barros, Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek. Audálio Vieira, grande amigo de meu avô materno, tomou-me nos braços, pôs-me na mão uma peixeira, subiu ao palanque e me fez dizer, na inocência dos três anos de idade: “Povo de Aracati, cambada de gente sem-vergonha: quem não votar em Juarez Távora, eu capo com esta faca!” O candidato perdeu, e, felizmente, não se cumpriu a promessa, para satisfação e refrigério das conterrâneas de Dona Mosinha – ela própria aliviada, já que meu pai também era de lá... Foi meu primeiro discurso, talhado a facão e politicamente incorreto, a prenunciar, sem que ninguém se desse conta, o ghost writer que eu viria a ser.

Descubro que a aposentadoria não é “a antessala da morte”, como certa vez declarou meu conterrâneo Chico Anysio, e reconheço-me nas palavras de Luis Fernando Verissimo: “Aposentado é o vagabundo sem culpa e com renda”. Assim, dou adeus às armas, depois de uma luta – menos trágica, embora mais longa – do que a Primeira Grande Guerra, tema do conhecido romance de Ernest Hemingway.

Na hipótese da reencarnação, não pediria a Deus as pompas do mundo, ou as delícias do poder, ou a megassena acumulada, mas que me mantivesse na Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. “Se possível, Senhor, na Área de Redação Parlamentar...”, poderia dizer, não fosse o risco de ter como resposta: “Ah, não, Caminha: assim você está querendo demais!”

(*) Edmilson Caminha (Fortaleza), escritor e assessor legislativo da Câmara dos Deputados

 

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Edmilson Caminha (Fortaleza), escritor


                                            


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