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Outubro 2012

Lustosa foi pra Sobral

Em 1997, escrevi: “Lustosa da Costa chega aos 40 anos de carreira jornalística e literária como um dos maiores talentos da sua geração. A elegância do estilo, a correção da forma, a leveza do humor são virtudes que, no seu trabalho, sobrepõem a obra do escritor ao fazer do jornalista, salvando-a da efemeridade a que se condenam as matérias de jornal. Por isso, o texto de Lustosa permanece como literatura – e literatura de muito boa qualidade –, sobrevivendo aos que se produzem para durar apenas 24 horas.”

Passados 15 anos, mantenho o que disse, para homenagear o escritor cuja morte golpeia os que tivemos a honra da sua amizade e o privilégio do seu convívio. Homem de imprensa, era sobretudo um literato, no sentido mais elogioso da expressão, cronista com a importância de Mílton Dias e de Rachel de Queiroz, para lembrar apenas dois cearenses que engrandeceram o gênero no Brasil. Dos muitos livros que publicou, às vezes mais de um por ano, tenho 15: Sobral do meu tempo (1982), Cartas do Beco (1983), Clero, nobreza e povo de Sobral (1987), Louvação de Fortaleza (1995), Vida, paixão e morte de Etelvino Soares (1996), No après-midi de nossas vidas (1997), Rache o Procópio! (1998), Foi na seca do 19 (1999), Como me tornei sexagenário (1999), O Senador dos Bois (2000), Sobral, cidade das cenas fortes (2003), Dicionário do Lustosa (2003), Ao cair da tarde (2006), TT das madrugadas (2006) e Sobral que não esqueço (2010).

Desconfio de que ser historiador era a vontade maior do cronista: como entre os irmãos já se achava uma, a brilhante Isabel Lustosa, decidiu-se por escrever crônicas históricas (ou história em formato de crônicas), descontraídas e leves. E o fez sobretudo com relação a Sobral, tão competentemente que transformou o Bispo Dom José Tupinambá da Frota, o Padre Palhano, o Senador Paula Pessoa e o Deputado Chico Monte em verdadeiras personagens de ficção. Uma delas o foi, realmente: o jornalista cearense Deolindo Barreto, que caiu morto pela fuzilaria de mais de 40 revólveres na Câmara Municipal de Sobral, em 1924, e lhe inspirou o admirável romance Vida, paixão e morte de Etelvino Soares (1996), relançado em 2002 por uma editora portuguesa. A exemplo dessa, Lustosa ficou a nos dever pelo menos outra narrativa longa, cuja semente acabou por não passar de uma crônica: sobre José Júlio de Andrade, “o maior latifundiário do mundo”, cearense que chegou a ser dono da vastidão amazônica do Jari.

Tão belas quanto as páginas de história que escreveu são as que têm por assunto o amor a Fortaleza, o prazer do bom uísque, as lembranças do repórter, as experiências políticas, a paixão pelas mulheres. À amiga propensa a trocar o marido pelo amante, aconselha, com primor de mestre e placidez de sábio: “Se você pode continuar a fazer dois homens felizes – para o que há demonstrado engenho e arte – por que mudar? Um é a aventura, a festa, a alegria das tardes. O outro é a segurança, a anuência, o hábito das noites. Por que largar o marido que nenhum mal lhe está fazendo e que só ia sofrer com a desestruturação de sua vida tão bem arrumada? Ele jamais atrapalhou suas festas vespertinas de cujos ensinamentos, inconscientemente, foi beneficiário na frieza das madrugadas conjugais.” Prosa que Rubem Braga assinaria com orgulho.

Some-se, a esses talentos, a fraterna dedicação de Lustosa aos amigos, inspiradores de cantos à mais verdadeira e incondicional amizade, aquela que o é por causa de tudo e apesar de nada. Com Paulo Elpídio de Menezes Neto, Dorian Sampaio, Tarcísio Tavares, Lúcio Brasileiro, Guilherme Neto, Aurílio “Mincharia” Gurgel, Hélio Barros, Emílio Burlamaqui, Wilson Ibiapina, companheiros de profissão e de boêmia, pertencia o escritor a uma espécie em extinção: a dos seres que, pela generosidade humana e pela grandeza espiritual, fazem o mundo melhor e a vida mais bela.

Dizem que Lustosa da Costa morreu. Não acredito, acho que ele foi pra Sobral. Não apenas porque a família poeticamente lançou suas cinzas sobre as águas do Acaraú: se lhe fosse dado escolher o paraíso onde repousar para sempre, creio que elegeria não a Paris que também o fascinava, mas a terra cearense de que se fez filho por destino e bem-querer. A provar que berço não é a cidade em que se nasce, mas a que se ama.

(*) Edmilson Caminha (Fortaleza), escritor e servidor da Câmara dos Deputados.

 

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Edmilson Caminha (Fortaleza), escritor


                                            


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