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Junho 2008

As Cabras do Caio


Caio Cirino nesse tempo ainda não o fazendeiro de Maranguape. Estava na pior e, como é capaz de tomar qualquer iniciativa para escapar, resolveu criar uma meia dúzia de vacas e outras tantas cabras e fazer iorgute para vender.

Quando eu tinha ido para Brasília em fins de 1964, deixara Caio escondido nas brumas daqueles tempos incertos. Nem consegui vê-lo antes de viajar. Mas isso era coisa comum naqueles tempos.

Quando me foi possível vir a Fortaleza, pela primeira vez, após a ida para o Planalto Central, encontrei o Caio na rua, sobraçando enorme tabuleiro cheio de copinhos de delicioso iorgute – ele me fez provar – e foi aquela alegria. Ele me deu o endereço e fui visitá-lo certa noite. Era uma morada meio escondida ao pé das dunas na Praia do Futuro. Não foi difícil localizar a casa que se destacava das demais, cercada que era por currais de madeira de pau-a-pique.

Assim que fui chegando senti logo aquele cheiro, gostoso, de mim conhecido de curral do sertão. Fui saudado por Caio, que empunhava um lampião e logo foi explicando:

- Vivo à luz da lamparina. A companhia de eletricidade não liga minha luz por pura discriminação política...

- Um mugido se fez ouvir e eu perguntei:

- Caio, as vacas são boas de leite, quantas são?

- Tenho quatro. Dão uns trinta litros e só tiro pela manhã. Mas a boa mesmo é a “sete de Novembro”, que dá mais de quinze litros por tirada. Manjou o nome, Em homenagem à Grande Revolução?

- Percebi, sim!

- Entramos para uma sala bastante ampla e Caio ofereceu- me uma rede que já estava armada em um dos cantos. Assim que sentei na rede, a porta foi sacudida por um forte impacto que a fez abrir-se. Entraram na sala uma cabrita da raça nubiana e um bode fogoso que já vinha de pavio aceso, em ponto de bala!

- Aqui vivo em harmonia com a natureza...

- Sou entusiasta da caprino cultura e vejo-a como uma alternativa econômica para o Nordeste. Vi que tem a raça anglo-nubiana, não é?

- Conhece, agora sei. Não são puras, mas de boa linhagem, quase puras por cruza. Mas esse bodinho que anda aí cuidando de fazer uns cabritinhos, é puro de pedigree. Tenho uma cabra, a “Cubana”, que dá três litros de leite!

- Relativamente mais do que está dando a “sete de Novembro”. Garanto-lhe que em termos comparativos esses três litros da cabra custam muito menos. A cabra é um animal rústico, muito adaptável ao nosso meio. Quase tudo que encontra ela transforma em alimento, não é verdade?

- É ... mas as cabras viviam aqui livremente. Andavam pelos morros comendo capins e matos nativos. Eu só dava ração complementar, mas agora vou ter que mantê-las no cativeiro, por causa desses diretas filhos da puta!

- Como é? É o que tem a direita com suas cabras, amigo?

- Estão matando as minhas cabras... Eles gostariam de me pegar, mas como não é fácil, pegam as cabras, os bodes e os cabritos. Vários já foram “seqüestrados”...

- Alguma organização de direita já assumiu a responsabilidade? Perguntei zombeteiro.

- Pensa que estou brincando?

- Caio, isso não é coisa de direita, garanto-lhe. Isso é coisa da fome...alguns desempregados, alguns favelados se desapertando com uns cabritos seus... você sabe, a fome é má conselheira, Caio...

- Essa não – protestou ele – um proleta comer minhas criações, essa não! O proletariado jamais trairia um camarada como eu!

Viúva ela, finado eu.

Em fins de 1964, em mandato cassado e sem o emprego público, fui embora para Brasília. Cheguei à cidade que haviam apelidado de Capital da Esperança, desempregado, com mulher e nove filhos menores embaixo dos braços. Foi uma barra! Tive que dar duro. Mas heroísmo mesmo foi deles por terem agüentado sem reclamar.

Fui ser administrador rural numa fazenda próxima da Capital Federal. Muitas vezes passei doze horas diárias operando um velho trator Valmet 360, arando e gradeando as terras vermelhas do cerrado do Planalto. Trabalho duro! Mas foi aquele o tempo em que vi os frutos do meu trabalho, quase imediatamente brotarem da terra. Hoje arava e gradeava. No dia seguinte plantava, Oito ou dez dias após, satisfeito via as plantinhas – milho, feijão, mandioca, etc brotando da terra.

A “Revolução” que tomara meu emprego, fator de sustento da minha família, para parecer boazinha, criou um decreto que concedia uma miserável pensão à família do funcionário público demitido pelos famigerados Atos Institucionais. Dita pensão representava nem 20% do que ganharia o funcionário público em exercício. Mas como a barra andava pesada demais, minha mulher foi aconselhada a requerer tal coisa. Como ela não conhecia nada em Brasília, tive que acompanhá-la até ao IPASE no Setor de Autarquias. Levaram-nos para uma sala no 7º andar e indicaram uma moça que atenderia minha mulher, que logo passou à funcionária seus documentos e dele recebeu um formulário com a recomendação “assina aqui”...”

Minha mulher examinou o papel e ponderou:

- Mas aí está viúva e eu não sou viúva, moça!

- Mas é minha senhora, mulher de funcionário que foi “enterrado” pela Revolução tem que assinar como viúva...

- Eu que, até então, assistira a tudo sem dizer uma palavra, disse:

- É isso aí moça, a viúva é ela, acontece que o finado sou eu...

-Não tenho culpa, a coisa vem de cima ... justificou-se a funcionária.

- Tem razão, menina, tem toda razão... – falei e ainda completei – a burrice vem mesmo de cima, está empoleirada no alto...



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Luciano Barreira
Jornalista e Escritor

                                            


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