Bom dia, domingo, 21 de Julho de 2024
Casa do Ceará

Imprima




Ouça aqui o Hino do Estado do Ceará



Instituições Parceiras


































:: Jornal Ceará em Brasília


::Odontoclínica
Untitled Document

Novembro 2015

Coronel Chichio

A impressão é ainda tão nítida que parece ter sido debruada ontem. Bem cedo, a serra envolta numa gaze de névoa, Guaramiranga ainda se espreguiçava aos primeiros raios de sol, e eu descia lentamente a ladeira da gruta, ladeada de ciprestes, respirando forte o ar puro da manhã como se respirasse a própria vida, tanto o encantamento.

Corriam os dias de verão, no período das férias entre dezembro e março. O céu muito azul era um contraste com o verde intenso que em todos os matizes cobria os morros. E se abrigava em janelas de vermelho, nas papoulas que desabrochavam à margem dos caminhos.

Doces e quase dolorosamente ternas as lembranças que me vêm dessas manhãs e dos dias preguiçosos, sem compromissos, vividos em plenitude, porque eram esperados ardentemente o ano inteiro, aguardados com a ansiedade de quem precisa de ar para viver. Febris, na alegria da adolescência, às portas de um mundo que me parecia fantástico, pronto para ser vivenciado.

A sua figura alta, cercada de uma respeitabilidade e de uma autoridade sempre presente, passava por mim, que vinha da missa, no rumo de suas obrigações constantes que permanentemente o chamavam para saídas regulares, todas as manhãs.

Vestindo-se com sobriedade, calça cáqui e camisa branca, botina preta, chapéu cinza, compunha o centro das atenções onde estivesse, com uma dimensão senhorial, dono de uma distinção e uma nobreza que eu sentia em cada gesto seu, num simples bom dia, numa atitude de aquiescência.

Era um chefe, um líder autêntico. Sua palavra, em qualquer sentido, era a fronteira entre o sim e o não, o impasse e a decisão, o empenho, a lei, a ordem e a sentença. Muitas vezes, o simples gesto substituía horas de discussão, e o seu silêncio, com a cabeça em pêndulo, vertical ou horizontal, traçava, com sabedoria e profundo senso de justiça, o rumo para os acontecimentos.

Generoso, bom, equilibrado, jamais participou de qualquer fato social, político ou jurídico representando o lado do mal. Juiz sem toga, resumia na força de sua personalidade todo um processo de equilíbrio que sustentava Guaramiranga dentro de uma ambiência de paz. Era governo sem os títulos oficiais. Era a ordem pelo exemplo e pela firmeza. Era um senhor sem armas nem brasões; talvez os tivesse, mas nunca os ostentou.

A casa onde morava, consequentemente, era quase um templo. Imensa nas suas proporções derramava seu sobrado num oitão muito branco, centro da vila, distribuindo-se em generosidade de salas e quartos amplos, claros, convidativos, na segurança, no conforto, na solidez que vinha do seu dono. As paredes externas ganhavam um perfil de vetusta dignidade, desenhado pela hera sobre o alvo da caliça. Pelo portão de ferro, sempre aberto, a escada se oferecia numa dezena de degraus logo à entrada, num convite que se antecipava aos seus moradores, sempre solícitos e pressurosos. E da varanda, guarnecida por balcões de ferro fundido, olhava-se o jardim, colorido e perfumado, onde disputavam beleza os jasmins, as gérberas, as violetas, as angélicas, as margaridas, os copos-de-leite, as rosas e, entre esse mundo botânico, os trevos ingênuos, onde buscávamos, no sortilégio das quatro folhas, as decifrações de um futuro feliz.

Inesquecível Coronel Chichio, um dos personagens mais marcantes que povoaram a caminhada alegre e inquieta da minha adolescência, senhor de um mundo que até hoje é a minha Passarada. Dono de um coração sem fronteiras, Francisco Mattos Brito possuía um cetro de liderança que nunca usou de violência para se impor ou se afirmar. Bondoso, sem ser piegas, tinha consciência de sua dimensão como chefe e líder, e na sua passagem jamais se despiu das marcas que lhe conferiam a qualidade de comandante.

Com ternura e profundo respeito rememoro aqui, tantos anos depois, o homem, o pai, o chefe de família, imaginando-o em seu terno de brim imaculadamente branco, abrindo as portas de sua casa em Guaramiranga, fazendo festivas as manhãs de domingo para os privilegiados que subiam as escadas do sobrado para apertar-lhe as mãos com um “bom dia”, ou então beijá-las com “a sua bênção, meu padrinho”.

Ao relembrar os fatos, as pessoas e as situações, um sentimento se sobrepõe a muitos outros que acorrem para reverenciar a sua extraordinária figura, a certeza de que o mundo seria bem melhor se, em cada comunidade humana, existisse um Coronel Chichio, exatamente como o de Guaramiranga, serra querida, terra encantada que eu relembro agora, coberta de névoa, toda branca e florida como a noiva do poeta: “Esta noite eu vi a minha serra, “Como uma noiva de grinalda e véu...”

(*) Regina Stella (Fortaleza), jornalista e escritora.

Untitled Document

Regina Stella S. Quintas
Jornalista e Escritora
studartquintas@hotmail.com

                                            
:: Outras edições ::

> 2015

– Outubro
Camaleões à solta

–Setembro
Um instante de Solidariedade

> 2015

– Novembro
Coronel Chichio

– Outubro
Uma ponte...

– Setembro
Um verbo para o encantamento

Agosto
Há vida lá fora...

> 2014

Setembro
Seca: a tragédia se repete
Agosto
Seca: a tragédia se repete
Julho
Gente brava
Junho
Dia da Alegria
Maio
Precioso bem
Abril
Aquele velho “OSCAR”
Maro
Estórias de sertão, estórias de cangaço
Fevereiro
Recado para quem sai
Janeiro
Rota para a vida

> 2013

Dezembro
Na festa do tempo, um brinde à vida
Novembro
Em velha trova do tempo. Trinta dias tem setembro. Abril, junho, novembro...
Outubro
O Gênio e o Homem
Agosto
O Gênio e o Homem
Julho
Um presente de vida a Mandela!
Junho
Dia da Alegria
Maio
Precioso bem
Abril
Aquele velho “OSCAR”
Maro
Estórias de sertão, estórias de cangaço
Fevereiro
Recado para quem sai
Janeiro
Rota para a vida

> 2012

Dezembro
As lições de amor e ternura fazem eterno o Natal
Novembro
As luzes estão acesas
Outubro
Amarga ironia
Setembro
O trono vazio
Agosto
A última trincheira
Julho
Parece que foi ontem...
Junho
Atores de todos os tempos
Maio
Seca: a tragédia se repete
Abril
Imaginação ou realidade?
Maro
Um Século de Sabedoria
Fevereiro
Trágedia e Carnaval

> 2011

Novembro
Trilhas da vida
Setembro
Um mercenário a caminho
Agosto
Usar sem abusar
Julho
Como as aves do céu
Maio
Quem se lembra de Chernobil?
Junho
Sino, coração da aldeia...
Maio
Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
Abril
Bonn, Bonn
Fevereiro
Depois da festa...
Janeiro
Um brinde ao Novo Ano

> 2010

Dezembro
Nos limites de um presente,um presente sem limites
Novembro
Homem total
Outubro
Estórias de sertão, estórias de cangaço
Setembro
Um tempo que se perdeu
Agosto
Império do Medo
Julho
Acenos de Esperança
Junho
Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
Maio
Poema Impossível
Março
Numa tarde de verão
Fevereiro
Caminhos de ontem
Janeiro
Muros de Argila

> 2009

Dezembro
Um Brinde Vida
Novembro
A vez da vida
Outubro
Gente brava
Setembro
Gente brava
Agosto
Lição de vida no diálogo dos bilros
Julho
Camalees solta
Junho
Síndrome de papel carbono
Maio
Um tempo que se perdeu


:: Veja Também ::

Blog do Ayrton Rocha
Blog do Edmilson Caminha
Blog do Presidente
Humor Negro & Branco Humor
Fernando Gurgel Filho
JB Serra e Gurgel
José Colombo de Souza Filho
José Jezer de Oliveira
Luciano Barreira
Lustosa da Costa
Regina Stella
Wilson Ibiapina
















SGAN Quadra 910 Conjunto F Asa Norte | Brasília-DF | CEP 70.790-100 | Fone: 3533-3800 | Whatsapp 61 995643484
E-mail: casadoceara@casadoceara.org.br
- Copyright@ - 2006/2007 - CASA DO CEARÁ EM BRASÍLIA -