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FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE
DATA: 07/06/2010

Manchete nossa de cada dia


Diretor da sucursal do Diário do Nordeste em Brasília, o veterano jornalista e radialista Wilson Ibiapina escreve sobre arte de criar manchetes, nos velhos tempos. Crônica traz pérolas do jornalismo de outros tempos

Manchete de jornal, chamada de primeira página. Não tem nada mais difícil. Tem toda uma métrica, obedece ao número das colunas, das batidas. Geralmente é a última tarefa para se fechar uma edição. A oficina toda esperando o primeiro caderno. A pressão não é pequena. O mancheteiro tem que ter poder de síntese, ser criativo e rápido. Alguns jornalistas se especializaram em fazer manchetes, tarefa que é cumprida, na maioria dos jornais pelo chefe de redação. É sempre ele, com a ajuda dos editores, que titula a primeira.

Lembro que no Ceará, o Felizardo Mont´Alverne, chefe de redação do Correio do Ceará, principal vespertino dos Diários Associados no Estado, tinha prazer em fazer as manchetes. São dele: "Delfim tranquiliza Plácido com o Fundo". O governador Plácido Castelo reclamava da falta de dinheiro e o Ministro da Fazenda diz que vai liberar verbas do Fundo de Participação dos Estados. "Mulher nua, morta a pau"; "Todo fumante morre de câncer, se outra doença não matar primeiro". O Rangel Cavalcante lembra outras: "Saram as cicatrizes da Guerra"; "Fechado o PCB (Partido Comunista Brasileiro) da Grécia". O Bichão como era conhecido, ficou famoso pelas manchetes que serviam para abastecer a coluna do Stanislaw Ponte Preta, na Última Hora, do Rio de Janeiro.

E por falar em Última Hora, conta a lenda que Samuel Wainer, seu dono, estava uma noite numa boate com um grupo de mulheres e resolveu cartear marra, se exibir, fazer farol. Pediu e o garçom trouxe o telefone. Quase cinco metros de fio se estendendo pelo salão, pois era antes do sem-fio e do celular. Ligou para a redação e perguntou qual a manchete do dia seguinte. O secretário de redação: "Pegou fogo o Maracanã ". E ele, quase gritando, mais para ser notado pelas moças do que para ser ouvido pelo secretário: "Não, essa não. Coloca aí: ´Pegou fogo o Maracanã´".

Grandes mancheteiros

Dizem que o grande mancheteiro da imprensa brasileira foi Carlos Eiras. Fez escola no antigo Diário da Noite. Seus seguidores se espalharam pelo País. O ator e diretor de teatro Aderbal Freire Filho lembrou de duas manchetes, do tempo em que era rapazinho em Fortaleza, que nunca esqueceu. As duas, crê, do Estado. "Seriam do Odalves Lima, primo do Fernando César Mesquita, inspirado pelas cervejas nas madrugadas do bar do Theatro José de Alencar, ao lado da redação, eu de dono, caixa, garçom e consumidor solidário". O bar chama-se "Bach Chopin" e as manchetes:  "Uma, quando morreu aquele papa que só durou um mês: ´O papa morreu de novo´".

Outra, na página policial, sobre uma foto de Santa Bárbara, quando a igreja cassou a santa: "Passava por santa".

O juiz e escritor Durval Ayres Filho conta que o jornalista Dedé de Castro, depois de beber cerveja adulterada (restos dos líquidos que ficavam nas garrafas eram recolhidos e serviam para engordar outros frascos, antes de sua reinserção na geladeira) e sabendo que a polícia sanitária iria interditar o estabelecimento, dada  a horrível situação de higiene na cozinha, locus preferido de ratos e baratas,  soltou essa: "Restaurante O Gerboux um prato para fiscais". O bar do Gerboux ficava ao lado da antiga sede da TV Ceará e era frequentado por jornalistas e radialistas.

Nos anos 50, no auge da Guerra Fria, seu pai, o jornalista Durval Ayres era secretário do jornal O Democrata, de orientação marxista, dirigido pelo saudoso Aníbal Bonavides. Durval Filho recorda que o pai,  sem qualquer notícia ou fato  importante para ser destacado naquele dia, soube que, em Missão Velha, um velho e conhecido comunista, porém, um provocador contumaz,  desordeiro de marca maior, dado a intimidade com duas coisas bem inflamáveis - o livro de Marx que ele usava como um Bíblia (inclusive com direito a pregação) e a cachaça do Cariri -,  havia sido preso pelo delegado local. Não deu outra: "Zé Cadete preso por ordem de Trumann".

Santa Cruz 

Mancheteiro famoso mesmo foi o Santa Cruz. O jornalista Pedro Rogério, que trabalhou anos na imprensa carioca, diz que Santa Cruz revolucionou O Dia, do Rio, com manchetes policiais: "Cortou o mal pela raiz", a história da mulher que castrou o marido que lhe traía. "Matou a família e foi ao cinema", depois, virou até filme. O padre prefeito aumentou o preço da carne e ganhou manchete: "Padre não resistiu à tentação da carne". Comeu cachorro quente e teve dor de barriga : "Cachorrro faz mal a moça". "Violada no auditório": o texto contava que na  final do 3º Festival da Record, em 1967, o público  vaiou o cantor-compositor Sérgio Ricardo durante toda a interpretação de "Beto Bom de Bola", o levando a, descontrolado, gritar "Vocês ganharam!", quebrar o violão e atirá-lo na plateia .

Outro mancheteiro famoso foi Adriano Barbosa. Segundo, ainda, Pedro Rogério, ele era o responsável pelas manchetes policiais de Última Hora e de O Globo. 

 "Na modernidade, os jornais são muito chatos". A reflexão é do escritor Durval Ayres Filho. Ele acha que hoje os jornais parecem saídos de uma máquina de lavar roupas. A notícia vem limpinha, sem cheiro, alva e parecendo confortável, como na propaganda do sabão em pó na TV. Até o final dos anos 70 e começo dos 80 havia manchetes hilárias, do tipo: "Dormiu bancário e acordou baiana", sobre a festa anual do movimento gay que se iniciava timidamente. Ou, com humor negro, "Adubava bananeiras com cadáveres", sobre uma sucessão de homicídios que um coronel deputado promoveu em seu sítio, aqui, na Pajuçara.

Mas não foi só a modernidade que mudou os jornais. Ao admitir a indenização por danos morais, a Constituição Federal de 1988 impôs limites à criatividade ampla e irrestrita na concepção de manchetes e títulos de jornal, no que diz respeito às situações especiais de pessoas e empresas. Talvez seja um dos motivos que levaram os  jornais policiais, os que mais exploram as manchetes, a  perderem a criatividade. Hoje, estão mais apelativos: "Padreco sofreu com picadura de zangão".

Vi os jornais policiais do final do século passado, verdadeira coleção guardada a sete chaves pelo jornalista  João Bosco Serra Gurgel. As manchetes de jornais como Povo e A Notícia não tem mais o charme da Luta Democrática, do Dia, do Diário da Noite. De antigamente. Hoje, chega a ser imoral: "Magricela deu pro gordão e morreu esmagada na cama". Apelam até na manchete esportiva: "Mengão promete enrabar o Fogão sem usar vaselina".

Das muitas que li, nos jornais guardados por J. B. Serra, só escapou uma. Você sabe que o normal dos suicidas da ponte Rio-Niteroi é se jogarem lá de cima. Mas o delegado Almir Pereira preferiu dar um tiro na cabeça. E A Notícia, do dia 29 de outubro de 1991 manchetou: "Atirou em vez de se atirar".



WILSON IBIAPINA*
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

Jornalista e diretor da sucursal do Diário do Nordeste em Brasília

 

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