Boa madrugada, domingo, 17 de Dezembro de 2017
Casa do Ceará

Imprima



Ouça aqui o Hino do Estado do Ceará



Instituições Parceiras








































:: Jornal Ceará em Brasília

Untitled Document

Setembro 2017

A par da grandeza literária, pelo primor dos seus romances e contos, o cearense Caio Porfírio Carneiro foi dos homens mais generosos, mais solidários e mais prestativos que encontrei em toda a minha vida. À tentação da vaidade e ao gozo da fama, respondia com o despojamento e a discrição que só se acham nos espíritos verdadeiramente superiores. Havia algo de franciscano na humildade e na modéstia com que viveu e morreu, aos 89 anos que acabara de fazer.

Por mais de meio século, protagonizou uma luminosa carreira literária, desde o lançamento, em 1961, de “Trapiá”, volume que logo o inscreveu na mais representativa linhagem brasileira do conto, a que pertencem Graciliano Ramos, Her- milo Borba Filho, Juarez Barroso, Moreira Campos e Dalton Trevisan, cinco mestres do gênero. Como romancista publicou, em 1965, “O sal da terra”, admirável pela força humana e pela riqueza do estilo, daquelas obras que marcam para sempre a sensibilidade de quem as lê.

Conterrâneos e amigos, lembrávamos com orgulho o paren- tesco que nos estreitava, como netos de avôs que eram primos de Adolfo Caminha, o grande romancista do “Bom-Crioulo”. Da correspondência que trocamos, reproduzo o que me es- creveu Caio em 15 de setembro de 1992, da São Paulo onde vivia, trabalhava e escrevia suas histórias. É página cheia de grandeza humana, de doçura espiritual e de amor ao próximo, testemunhados pelos que tivemos a honra da sua amizade e o privilégio do seu convívio:  

“Meu querido primo Edmílson, há dias vinha pensando em responder à sua carta. Mas cadê coragem? É que a Dedé, minha segunda mãe, está muito doente no hospital. Uma se- gunda isquemia levou-a a um estado praticamente vegetativo, vivendo à custa de sondas. Não sabemos até quando isto irá...

“Fico pensando como esta merda de vida é estranha. Ma- mãe, quando casou, em 1918, levou a Dedé, filha de índio com cearense, para morar com ela e ajudá-la nas labutas da casa. Era mocinha. Os filhos foram nascendo, num total de dez, e ela ao lado da minha mãe, ajudando a nos criar. Todos nós mijamos e cagamos nos seus braços. Não se casou. Passou a vida dando de si. Preocupou-se com todos nós a vida inteira. Todos já adultos, envelhecendo, e ela fazendo chazinho quando sabia que um de nós estava doente, como se todos continuassem crianças com catapora. Éramos o seu mundo e o seu horizonte. Nada pedia para si. Depois que mamãe se foi, em 1961, ela continuou na mesma faina, à frente de tudo. Se pensávamos em chamar alguém para ajudá-la na cozinha, vinha a bronca. Envelheceu junto ao fogão, como ao leme de um barco. Com o primeiro problema isquêmico, foi obrigada a ir para uma casa de repouso. De lá, só pensava em nós, se alguém estava doente, etc. Escondíamos o que podíamos dela. (...) Estava sempre ao lado daquele que precisasse de mais auxílio.

“E agora, aos 83 anos de idade, fina-se num leito de hos- pital. Não ia a cinema, não se divertia, de televisão só assistia ao Sílvio Santos. Levamos a querida ‘mãe’ inúmeras vezes ao Ceará. Se estava lá, pensava nos que ficaram aqui; aqui, pensava nos de lá. Um dia, pediu que abríssemos para ela uma caderneta de poupança, para guardar os seus trocados. Eu fiz isto. Ela foi juntando, juntando... De repente, insistiu para sacar tudo. Muito bem. Sacamos. Ela pegou o dinheiro e comprou presente para todo mundo, nada para si. Pergunto: que sentido tem essa vida, primo? Não creio em céu, em inferno, em nada. Mas preciso urgentemente criar um céu para colocar todas as Dedés do mundo, que nunca leram uma poesia, nunca leram um romance, nunca ouviram uma sinfonia, nunca admiraram uma obra de arte. Começo a crer que uma vida como a da Dedé tem mais arte em si do que a Arte que tanto admiramos... (...)”

Assim era Caio Porfírio Carneiro, um homem simples e bom, contista fabuloso, brilhante romancista, de cuja boa prosa sentiremos falta, muita falta.

(*) Edmilson Caminha (Fortaleza) jornalista  e escritor,  membro da Academia Brasiliense de Letras e diretor da Associação Nacional de Escritores.

 

Untitled Document

Edmilson Caminha (Fortaleza), escritor


                                            


:: Outras edições ::

> 2017

– Setembro
A Grandeza e o Talento de Caio Porfírio Carneiro

> 2015

– Novembro
A noviça rebelde e o buraco do tuco

– Outubro
Carlos Zéfiro, meu parente

– Setembro
O Professor, Beethoven e o Ladrão

> 2014

– Agosto
Ubaldo, o Imortal de Bermudas

> 2013

– Dezembro
Dom Helder o Fertilizador de Desertos
– Outubro
A Senhora do não me deixes
– Agosto
Memórias de um quase médico
– Julho
Um trem de ferro, cheio de cristão
– Junho
Adeus às armas
– Maio
O talento e a grandeza de Leonardo Sampaio
– Abril
Com Raposão, perdidos em Jerusalém
– Março
A eterna praga dos erros de revisão

> 2012

– Dezembro
O Rei Luiz e o Jovem Carrapicho
– Outubro
Lustosa foi pra Sobral
– Agosto
Hábitos antigos
– Fevereiro
Aloysio Campos, da paz e do bem

> 2011

– Novembro
Manezinho do Bispo, doidinho de Deus
– Agosto
Olavo Pimenta e a Boina de Fidel
– Março
Também do Quixadá, e bom como Rachel de Queiroz



:: Veja Também ::

Blog do Ayrton Rocha
Blog do Edmilson Caminha
Blog do Presidente
Humor Negro & Branco Humor
Fernando Gurgel Filho
JB Serra e Gurgel
José Colombo de Souza Filho
José Jezer de Oliveira
Luciano Barreira
Lustosa da Costa
Regina Stella
Wilson Ibiapina
















SGAN Quadra 910 Conjunto F Asa Norte | Brasília-DF | CEP 70.790-100 | Fone: 3533-3800
E-mail: casadoceara@casadoceara.org.br
- Copyright@ - 2006/2007 - CASA DO CEARÁ EM BRASÍLIA -