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Junho 2010

Sino, coração da aldeia


“Sino, coração da aldeia
sino, coração da gente,
um, sente quando bate,
outro, bate quando sente”

De quem são os versos? _De alguém sensível e terno, certamente. Remonta aos séculos, vem de longe o ecoar dos sinos, em tempo de guerra, em tempo de paz. Como um mensageiro, auspicioso, levando e trazendo boas notícias, alvíssareiro, confraternizando, prometendo alegria. Solidário, em lentas badaladas, cadenciadas, anunciando o luto, a agonia, o fim da vida. Como uma carta aberta, sem palavras, mas em som, no alto do campanário, para a cidade ou para a aldeia, propalando a dor mais pungente, ou bimbalhando, festivo, proclamando o brado mais vibrante. E pelas praças, e pelas ruas, subindo montanhas ou descendo vales, entrando nas casas, nos albergues, nos conventos, o repicar que é apelo, clamor, convite, sinal de alerta.

As lembranças afloram. Lembro a serra dos meus amores embrulhada em névoa, Guaramiranga, linda, amanhecendo, e, subindo para a Capela da Gruta pela alameda de ciprestes, os grupos em silêncio, braços cruzados, aconchegados, que o frio enregelava os ossos. E o sino tocando, convidando, lembrando que há “um depois” desta caminhada, invisível e eterno. A missa ia começar.

Aos domingos, um Cruzeiro no Largo da Matriz, no topo da ladeira, anunciava a proximidade da igrejinha branca onde se aglomeravam homens e mulheres, jovens e velhos, o povo da Vila, aos poucos chegando, em roupa domingueira, um véu, um missal, um terço na mão, e uma fé no coração, intensa e forte. Chovesse ou fizesse sol, na missa das dez, o frade capuchinho iria falar de Cristo, de generosidade e bem, na crença de um Deus que criara o mundo em sete dias, e por bondade se apiedava deste pobre pecador, o homem, a quem prometera o Paraíso. O sino ganhava a serra inteira, entrando nas Casas Grandes, nas Casas Pequeninas fazendo o seu convite, insistindo no apelo, e, atendendo, o coração em festa, se preparavam todos, o vestido mais bonito, o sapato mais lustroso.

Depois, na casa do Coronel Chichiu, família Mattos Brito, Dona Adelaide de Queiroz pontificava a mesa de quatro metros, a toalha branca, e o café fumegante, e os biscoitinhos caseiros desmanchando na boca, os pãezinhos de minuto para os convivas, de todos os domingos. Portas e janelas abertas, as rosas no jardim, os canteiros de amor perfeito, as violetas escondidas, a conversa amena, e um a um chegando, trocando caloroso abraço.

E o sino repicando, em festa, fazendo parte do cenário e da felicidade. Esquecer, quem pode? Ali, naquela casa antiga, de pesados portões de ferro, a vida me presenteou com dias adoráveis. Ali, me vi frente a frente com os livros, M.Delly, Max Du Veuzit,”A filha do Diretor do Circo” e meu primeiro encontro com Goethe, o maior escritor alemão, por quem, fascinada, adotei, como leme, uma frase que escreveu e que guardei de cor, e que transcrevi em todos os cadernos e livros de adolescente, como um carimbo marcando uma definição.” Dá inicio a tudo quando fores capaz de fazer ou imaginar. Na audácia há gênio, força, magia.”

Dos anos verdes, ah! como são doces as lembranças, como um compromisso, uma obrigação para avivar a cor dos valiosos tempos,voltando, vou impreterivelmente á Igreja do Pequeno Grande, preciosa, arquitetura de ferro em rebuscados arabescos, o teto de ardósia, e, na nave, a impressão é que se vai pisando em terra santa, num ontem há muito tempo perdido que por milagre perdura, trancado no coração. E nesse instante se os sinos começam a repicar, o “Ângelus”, lançando o apelo á reflexão, então se dobram os joelhos, e na nave vazia, parada a respiração, é solene o momento, a criatura frente ao Criador. O’ tempora! O’moris ! Os sinos estão ameaçados e poderão

parar!”As badaladas da discórdia” proclama a notícia no jornal. Um impacto, para o pároco do Lago Sul, a reclamação ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram), contra as badaladas diárias da Igreja, pelo empresário ou doutor, morador nas cercanias de São Pedro de Alcântara. Estarrecido, o vigário conta apenas com trinta dias para uma explicação, uma defesa, e tentar um acordo pela poluição sonora, medida em decibéis! Dois minutos, apenas, a duração das badaladas, mas o senhor doutor não pode ter seu descanso interrompido! Mais fácil amordaçar os sinos!

Com a notícia, lembrei que há algum tempo, na Praça do Coração de Jesus, em Fortaleza, na Igreja dos Frades Capuchinhos, numa linda tarde de junho, os sinos badalaram mais fortes, vibrantes, e ecoaram longe, levando uma mensagem de bem, uma mensagem de fé no amanhã. Repicavam com tanta alegria quanto o meu coração que batia acelerado, a caminho do altar. Eu caminhava pela nave da Igreja, de grinalda e véu....

(*) Regina Stella (Fortaleza), jornalista e escritora.

 

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Regina Stella S. Quintas
Jornalista e Escritora
studartquintas@hotmail.com

                                            
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Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
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Estórias de sertão, estórias de cangaço
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Um tempo que se perdeu
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