Boa madrugada, sexta-Feira, 20 de Setembro de 2019
Casa do Ceará

Imprima



Ouça aqui o Hino do Estado do Ceará



Instituições Parceiras


































:: Jornal Ceará em Brasília



— Última Edição —
— Edições Anteriores —

Untitled Document

Outubro 2012

Amarga ironia

Quando ele olhou a esplêndida paisagem à sua volta, a lagoa, as montanhas, os flamboyants e as amendoeiras enfileiradas à beira d’agua como sentinelas montando guarda, sentiu o privilégio que ali se oferecia. Nem por um instante vacilou. Decidiu, de pronto, que teria naquele lugar um pedaço de chão.Acolheu, fascinado, a idéia que brotara, e dias depois comprava a terra que imaginara num momento de exaltação.

Morando na cidade grande,numa rua barulhenta, onde o burburinho só tinha fim pela alta madrugada, ele se viu como um deus, a gozar de sossego e paz, das coisas simples há tanto esquecidas, longe do asfalto, do concreto, dos gigantescos edifícios.

Aos fins de semana, impreterivelmente, atravessava a baía, aliviado, e se encastelava na casinha branca cercada de varanda, tosca, a ler um livro, um jornal, a improvisar um jardim, a conversar, rapidamente, com alguém conhecido que passasse em frente. Passados alguns meses, os olhos só tinham vez para a b eleza e paz, alargou os horizontes, fez amizade com os moradores, uma prosa aqui, outra ali,no boteco uma cervejinha gelada. Chamou-lhe a atenção a extrema pobreza que cercava o seu pequeno mundo. E resolveu ajudar àquela pobre comunidade.Traria donativos, roupas usadas para distribuir, algo que conseguisse entre os amigos da cidade grande. Não poderia ficar alheio às necessidades que ali saltavam aos olhos.

Certo dia, ao ver o açougueiro da rua onde morava, que lhe servia há anos, descarnar uma peça,” gigantesco trazeiro”, teve a idéia de lhe pedir os ossos que se amontoavam num canto, para levar aos sábados àquela humilde gente, carente de proteínas. E pensava, de como faria bem às crianças um caldo quente, uma sopa, as proteínas que finalmente chegariam.

Contente, lá se ia aos fins de semana para o seu mundo de sossego, ansiando por silêncio, pela beleza da paisagem que antevia, satisfeito com a bagagem que levava, pesados sacos de ossos. Tinham endereço certo, toda vez.Mal chegava, lá estavam os fregueses à espera.

Convencido da caridade que exercitava, da colaboração que dava àquela gente, usufruía da alegria de distribuir. E ficava imaginando as famílias em volta da mesa ,imprestável, carcomida, pensa, a tomar, nas noites frias, o caldo dos ossos que trazia. E se passaram meses.

Tranqüilo, cumpria à risca o ritual: a compra dos sacos de plásticos, a ida ao açougueiro, a conversa rotineira confirmando o seu agradecimento pela participação e generosidade.

Trabalho repetido a cada sábado, igual, monótono mas infalível. E gratificante.

Certa vez, a distribuição dos ossos já tinha sido feita, e ainda cansado, a viagem tinha sido mais longa, difícil o trânsito, e já anoitecia, quando um dos costumeiros fregueses se aproximou.

Desconfiado, rondava de um lado a outro,uma palavra aqui, outra ali, resmungando. E então? indagou, surpreso, do estranho comportamento.Tem alguma coisa a me dizer? Depois de uma certa insistência, ainda relutando, com meias palavras,” pois é, o mundo é assim, nem todo mundo é igual, há gente boa e gente ruim, “ decidiu falar. E começou, - Eu acho que o senhor devia ficar um tempo sem vir aqui.É muito trabalho e o senhor mora tão longe! _ Porque? retrucou o benfeitor,espantado com a sugestão do peão, habituado à alegria da chegada, a pequena multidão lhe aguardando, a certeza do dever cumprido, a fisionomia dos que eram aquinhoados... Porque? _Estão falando umas coisas...e o senhor não vai gostar. Estão querendo, estão combinando lhe pegar. De surpresa. Para lhe dar uma surra.

Uma surra bem dada!

Espantado, arregalando os olhos pela inusitada confidência, soltou uma exclamação tamanho da noite: o que? como?porque?

Ah! esse povo fala demais! Estão espaiando que o senhor está enganando a “nois”. Estão dizendo que o governo dá a carne e manda pra cá, mas o senhor tira toda ela , e traz “pra nois” só os osso! Vão pegar o senhor. Ninguem quer ser enganado.

Era grave a denuncia e muito maior o espanto! Àquela noite, horrorizado, não pôde pregar os olhos. De medo, de raiva, de desencanto, Então, lhe tomavam por velhaco, ladrão e trapaceiro!

Madrugada, ainda escuro, levantou-se, juntou os apetrechos. Fechou a casa e se agachando , em defesa, caminhou até o carro.Como podia o homem dar acolhida a tamanha perversâo!

Naquela manhã de domingo, atravessando a baia, terrivelmente agredido, trazia na boca um amargo gosto de desengano

Passados muitos meses me confessou que, quebrado o encanto, não sabia dizer se ainda voltaria. Talvez quando o desgosto passar..

(*) Regina Stella (Fortaleza), jornalista e escritora

Untitled Document

Regina Stella S. Quintas
Jornalista e Escritora
studartquintas@hotmail.com

                                            
:: Outras edições ::

> 2015

– Outubro
Camaleões à solta

–Setembro
Um instante de Solidariedade

> 2015

– Novembro
Coronel Chichio

– Outubro
Uma ponte...

– Setembro
Um verbo para o encantamento

– Agosto
Há vida lá fora...

> 2014

– Setembro
Seca: a tragédia se repete
– Agosto
Seca: a tragédia se repete
– Julho
Gente brava
– Junho
Dia da Alegria
– Maio
Precioso bem
– Abril
Aquele velho “OSCAR”
– Março
Estórias de sertão, estórias de cangaço
– Fevereiro
Recado para quem sai
– Janeiro
Rota para a vida

> 2013

– Dezembro
Na festa do tempo, um brinde à vida
– Novembro
Em velha trova do tempo. Trinta dias tem setembro. Abril, junho, novembro...
– Outubro
O Gênio e o Homem
– Agosto
O Gênio e o Homem
– Julho
Um presente de vida a Mandela!
– Junho
Dia da Alegria
– Maio
Precioso bem
– Abril
Aquele velho “OSCAR”
– Março
Estórias de sertão, estórias de cangaço
– Fevereiro
Recado para quem sai
– Janeiro
Rota para a vida

> 2012

– Dezembro
As lições de amor e ternura fazem eterno o Natal
– Novembro
As luzes estão acesas
– Outubro
Amarga ironia
– Setembro
O trono vazio
– Agosto
A última trincheira
– Julho
Parece que foi ontem...
– Junho
Atores de todos os tempos
– Maio
Seca: a tragédia se repete
– Abril
Imaginação ou realidade?
– Março
Um Século de Sabedoria
– Fevereiro
Trágedia e Carnaval

> 2011

– Novembro
Trilhas da vida
– Setembro
Um mercenário a caminho
– Agosto
Usar sem abusar
– Julho
Como as aves do céu
– Maio
Quem se lembra de Chernobil?
– Junho
Sino, coração da aldeia...
– Maio
Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
– Abril
Bonn, Bonn
– Fevereiro
Depois da festa...
– Janeiro
Um brinde ao Novo Ano

> 2010

– Dezembro
Nos limites de um presente,um presente sem limites
– Novembro
Homem total
– Outubro
Estórias de sertão, estórias de cangaço
– Setembro
Um tempo que se perdeu
– Agosto
Império do Medo
– Julho
Acenos de Esperança
– Junho
Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
– Maio
Poema Impossível
– Março
Numa tarde de verão
–Fevereiro
Caminhos de ontem
– Janeiro
Muros de Argila

> 2009

– Dezembro
Um Brinde à Vida
– Novembro
A vez da vida
– Outubro
Gente brava
– Setembro
Gente brava
– Agosto
Lição de vida no diálogo dos bilros
– Julho
Camaleões à solta
– Junho
Síndrome de papel carbono
– Maio
Um tempo que se perdeu


:: Veja Também ::

Blog do Ayrton Rocha
Blog do Edmilson Caminha
Blog do Presidente
Humor Negro & Branco Humor
Fernando Gurgel Filho
JB Serra e Gurgel
José Colombo de Souza Filho
José Jezer de Oliveira
Luciano Barreira
Lustosa da Costa
Regina Stella
Wilson Ibiapina
















SGAN Quadra 910 Conjunto F Asa Norte | Brasília-DF | CEP 70.790-100 | Fone: 3533-3800
E-mail: casadoceara@casadoceara.org.br
- Copyright@ - 2006/2007 - CASA DO CEARÁ EM BRASÍLIA -