Boa tarde, domingo, 15 de Setembro de 2019
Casa do Ceará

Imprima



Ouça aqui o Hino do Estado do Ceará



Instituições Parceiras


































:: Jornal Ceará em Brasília



— Última Edição —
— Edições Anteriores —

Untitled Document

Junho 2010

Sino, coração da aldeia


“Sino, coração da aldeia
sino, coração da gente,
um, sente quando bate,
outro, bate quando sente”

De quem são os versos? _De alguém sensível e terno, certamente. Remonta aos séculos, vem de longe o ecoar dos sinos, em tempo de guerra, em tempo de paz. Como um mensageiro, auspicioso, levando e trazendo boas notícias, alvíssareiro, confraternizando, prometendo alegria. Solidário, em lentas badaladas, cadenciadas, anunciando o luto, a agonia, o fim da vida. Como uma carta aberta, sem palavras, mas em som, no alto do campanário, para a cidade ou para a aldeia, propalando a dor mais pungente, ou bimbalhando, festivo, proclamando o brado mais vibrante. E pelas praças, e pelas ruas, subindo montanhas ou descendo vales, entrando nas casas, nos albergues, nos conventos, o repicar que é apelo, clamor, convite, sinal de alerta.

As lembranças afloram. Lembro a serra dos meus amores embrulhada em névoa, Guaramiranga, linda, amanhecendo, e, subindo para a Capela da Gruta pela alameda de ciprestes, os grupos em silêncio, braços cruzados, aconchegados, que o frio enregelava os ossos. E o sino tocando, convidando, lembrando que há “um depois” desta caminhada, invisível e eterno. A missa ia começar.

Aos domingos, um Cruzeiro no Largo da Matriz, no topo da ladeira, anunciava a proximidade da igrejinha branca onde se aglomeravam homens e mulheres, jovens e velhos, o povo da Vila, aos poucos chegando, em roupa domingueira, um véu, um missal, um terço na mão, e uma fé no coração, intensa e forte. Chovesse ou fizesse sol, na missa das dez, o frade capuchinho iria falar de Cristo, de generosidade e bem, na crença de um Deus que criara o mundo em sete dias, e por bondade se apiedava deste pobre pecador, o homem, a quem prometera o Paraíso. O sino ganhava a serra inteira, entrando nas Casas Grandes, nas Casas Pequeninas fazendo o seu convite, insistindo no apelo, e, atendendo, o coração em festa, se preparavam todos, o vestido mais bonito, o sapato mais lustroso.

Depois, na casa do Coronel Chichiu, família Mattos Brito, Dona Adelaide de Queiroz pontificava a mesa de quatro metros, a toalha branca, e o café fumegante, e os biscoitinhos caseiros desmanchando na boca, os pãezinhos de minuto para os convivas, de todos os domingos. Portas e janelas abertas, as rosas no jardim, os canteiros de amor perfeito, as violetas escondidas, a conversa amena, e um a um chegando, trocando caloroso abraço.

E o sino repicando, em festa, fazendo parte do cenário e da felicidade. Esquecer, quem pode? Ali, naquela casa antiga, de pesados portões de ferro, a vida me presenteou com dias adoráveis. Ali, me vi frente a frente com os livros, M.Delly, Max Du Veuzit,”A filha do Diretor do Circo” e meu primeiro encontro com Goethe, o maior escritor alemão, por quem, fascinada, adotei, como leme, uma frase que escreveu e que guardei de cor, e que transcrevi em todos os cadernos e livros de adolescente, como um carimbo marcando uma definição.” Dá inicio a tudo quando fores capaz de fazer ou imaginar. Na audácia há gênio, força, magia.”

Dos anos verdes, ah! como são doces as lembranças, como um compromisso, uma obrigação para avivar a cor dos valiosos tempos,voltando, vou impreterivelmente á Igreja do Pequeno Grande, preciosa, arquitetura de ferro em rebuscados arabescos, o teto de ardósia, e, na nave, a impressão é que se vai pisando em terra santa, num ontem há muito tempo perdido que por milagre perdura, trancado no coração. E nesse instante se os sinos começam a repicar, o “Ângelus”, lançando o apelo á reflexão, então se dobram os joelhos, e na nave vazia, parada a respiração, é solene o momento, a criatura frente ao Criador. O’ tempora! O’moris ! Os sinos estão ameaçados e poderão

parar!”As badaladas da discórdia” proclama a notícia no jornal. Um impacto, para o pároco do Lago Sul, a reclamação ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram), contra as badaladas diárias da Igreja, pelo empresário ou doutor, morador nas cercanias de São Pedro de Alcântara. Estarrecido, o vigário conta apenas com trinta dias para uma explicação, uma defesa, e tentar um acordo pela poluição sonora, medida em decibéis! Dois minutos, apenas, a duração das badaladas, mas o senhor doutor não pode ter seu descanso interrompido! Mais fácil amordaçar os sinos!

Com a notícia, lembrei que há algum tempo, na Praça do Coração de Jesus, em Fortaleza, na Igreja dos Frades Capuchinhos, numa linda tarde de junho, os sinos badalaram mais fortes, vibrantes, e ecoaram longe, levando uma mensagem de bem, uma mensagem de fé no amanhã. Repicavam com tanta alegria quanto o meu coração que batia acelerado, a caminho do altar. Eu caminhava pela nave da Igreja, de grinalda e véu....

(*) Regina Stella (Fortaleza), jornalista e escritora.

 

Untitled Document

Regina Stella S. Quintas
Jornalista e Escritora
studartquintas@hotmail.com

                                            
:: Outras edições ::

> 2015

– Outubro
Camaleões à solta

–Setembro
Um instante de Solidariedade

> 2015

– Novembro
Coronel Chichio

– Outubro
Uma ponte...

– Setembro
Um verbo para o encantamento

– Agosto
Há vida lá fora...

> 2014

– Setembro
Seca: a tragédia se repete
– Agosto
Seca: a tragédia se repete
– Julho
Gente brava
– Junho
Dia da Alegria
– Maio
Precioso bem
– Abril
Aquele velho “OSCAR”
– Março
Estórias de sertão, estórias de cangaço
– Fevereiro
Recado para quem sai
– Janeiro
Rota para a vida

> 2013

– Dezembro
Na festa do tempo, um brinde à vida
– Novembro
Em velha trova do tempo. Trinta dias tem setembro. Abril, junho, novembro...
– Outubro
O Gênio e o Homem
– Agosto
O Gênio e o Homem
– Julho
Um presente de vida a Mandela!
– Junho
Dia da Alegria
– Maio
Precioso bem
– Abril
Aquele velho “OSCAR”
– Março
Estórias de sertão, estórias de cangaço
– Fevereiro
Recado para quem sai
– Janeiro
Rota para a vida

> 2012

– Dezembro
As lições de amor e ternura fazem eterno o Natal
– Novembro
As luzes estão acesas
– Outubro
Amarga ironia
– Setembro
O trono vazio
– Agosto
A última trincheira
– Julho
Parece que foi ontem...
– Junho
Atores de todos os tempos
– Maio
Seca: a tragédia se repete
– Abril
Imaginação ou realidade?
– Março
Um Século de Sabedoria
– Fevereiro
Trágedia e Carnaval

> 2011

– Novembro
Trilhas da vida
– Setembro
Um mercenário a caminho
– Agosto
Usar sem abusar
– Julho
Como as aves do céu
– Maio
Quem se lembra de Chernobil?
– Junho
Sino, coração da aldeia...
– Maio
Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
– Abril
Bonn, Bonn
– Fevereiro
Depois da festa...
– Janeiro
Um brinde ao Novo Ano

> 2010

– Dezembro
Nos limites de um presente,um presente sem limites
– Novembro
Homem total
– Outubro
Estórias de sertão, estórias de cangaço
– Setembro
Um tempo que se perdeu
– Agosto
Império do Medo
– Julho
Acenos de Esperança
– Junho
Maio, cada vez menos Mês de Maria, está indo embora...
– Maio
Poema Impossível
– Março
Numa tarde de verão
–Fevereiro
Caminhos de ontem
– Janeiro
Muros de Argila

> 2009

– Dezembro
Um Brinde à Vida
– Novembro
A vez da vida
– Outubro
Gente brava
– Setembro
Gente brava
– Agosto
Lição de vida no diálogo dos bilros
– Julho
Camaleões à solta
– Junho
Síndrome de papel carbono
– Maio
Um tempo que se perdeu


:: Veja Também ::

Blog do Ayrton Rocha
Blog do Edmilson Caminha
Blog do Presidente
Humor Negro & Branco Humor
Fernando Gurgel Filho
JB Serra e Gurgel
José Colombo de Souza Filho
José Jezer de Oliveira
Luciano Barreira
Lustosa da Costa
Regina Stella
Wilson Ibiapina
















SGAN Quadra 910 Conjunto F Asa Norte | Brasília-DF | CEP 70.790-100 | Fone: 3533-3800
E-mail: casadoceara@casadoceara.org.br
- Copyright@ - 2006/2007 - CASA DO CEARÁ EM BRASÍLIA -